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Dádiva da Adoração a Deus

Adorar a Deus é um gesto simples, mesmo que muitas vezes não seja tão fácil assim, pelo menos quando se refere à verdadeira adoração que é feita alegremente, espontaneamente e em plena sinceridade de coração. Pois, apesar de simples, historicamente a humanidade sempre encontrou grandes dificuldades em oferecer a Deus verdadeira e exclusiva adoração. Continue lendo...

quinta-feira, 4 de maio de 2017

“Não leva, não, por favor, eu não tenho nada”

Por Revista Pazes - maio 4, 2017


Ontem o jornalista Marcos Hermanson postou em sua conta pessoal no Facebook um vídeo que nos mostra o quanto a frieza e a desumanização tem dado o norte dos nossos dias.

Fica aqui um convite, coloque-se no lugar desse senhor agredido e humilhado, mas também coloque-se no lugar desses policiais… O primeiro nos faz sentir a dor da humilhação. Estes últimos, a dor do vazio. O vazio de uma vida de extrema pobreza existencial, onde o sustento é provido (neste caso) de uma atividade desumana e desonrosa.

Abaixo, o texto postado e o vídeo compartilhado.


“Ontem a temperatura mínima na cidade de São Paulo foi 16 graus.
Não foi um sono difícil, entretanto. Tenho em casa colchão, cobertores e um fogão que me esquenta a barriga antes de deitar. Tenho paredes à minha volta que impedem o vento gelado de me castigar durante a noite. Tenho o suficiente para garantir a sobrevivência de um ser humano com o mínimo de dignidade.
Hoje, uma quarta-feira de todos os santos, sai de casa bem encasacado. Subi a escadaria e caminhei pelo pequeno terminal de ônibus do bairro. Desci por uma das entradas do metrô Conceição e sai pelo outro lado, evitando a avenida caótica e barulhenta que corre acima dos trens.

Impelido pelo desejo de começar o dia com uma coxinha ou um pastel, eu caminhava até o Praça São Paulo quando de repente avistei uma das “limpezas” periódicas praticadas pela prefeitura.

Alguns agentes da Guarda Metropolitana – a GCM – tentavam remover os poucos pertences de um morador de rua: um colchão, alguns cobertores e um carrinho de supermercado, cuja nota fiscal o sujeito foi incapaz de apresentar, vejam bem.

Não pretendo me estender aqui, porque o vídeo fala mais do que qualquer coisa que eu tenho capacidade de escrever.

Mas como é triste viver numa sociedade que coloca um trabalhador pra reprimir seu camarada, tirar dele o pouco que tem e deixá-lo numa situação pior ainda do que a pobreza repugnante na qual se encontrava antes.
Acima de tudo, uma sociedade que gera tanta mas tanta miséria apenas para que encontre depois, como solução, criminalizá-la.

Vem aí o inverno. A mínima de hoje é de 15 graus.”Marcos Hermanson

Resenha de EHRMAN, Bart D. O que Jesus Disse? O que Jesus Não Disse? Quem Mudou a Bíblia e Por Quê. São Paulo: Prestígio, 2006. 245 p

Resenha
EHRMAN, Bart D. O que Jesus Disse? O que Jesus Não Disse? Quem Mudou a Bíblia e Por Quê. São Paulo: Prestígio, 2006. 245 p

ehrman

 


Na última década, vimos o surgimento de um movimento fortemente antiteísta, que veio a ser denominado por neoateísmo e conhecido pelas suas mordazes críticas a toda religião, em especial ao cristianismo. Christopher Hitchens, Daniel Dennett, Richard Dawkins e Sam Harris são quatro dos principais “evangelistas” do movimento. Na esteira dessa empreitada, surge Bart D. Ehrman. À diferença dos demais, Ehrman é um especialista naquilo que é alvo de seus ataques. Ph.D em teologia pela Universidade de Princeton, ele é um dos principais especialistas em crítica textual do Novo Testamento dos nossos dias. Usando de toda sua bagagem teórica e indiscutível autoridade acadêmica, ele nos tenta mostrar que o Novo Testamento tal como nós o temos hoje não é textualmente confiável, por ter sido vítima, supostamente, de milhares de alterações voluntárias e involuntárias nas mãos dos copistas ao longo dos séculos. Daí o título provocador de seu livro, que insinua logo de cara que, digamos, nem tudo que Jesus disse foi, de fato, dito por ele.

domingo, 5 de junho de 2016

ISAÍAS 58




Não consigo negar que Isaías 58 é um dos textos da bíblia que mais amo e que mais me chama a atenção. Talvez, penso eu, que seja por conta da profunda admiração que tenho pelo profetismo veterotestamentário e pelas suas influências em minha vida. Talvez pela forte influência que a matéria de diaconia teve sobre mim na academia. Talvez pela admiração e respeito pela teologia da libertação e total apoio a teologia da missão integral. E quem sabe Deus, até pela posição politica que flerta com a centro-esquerda. Seja pelo que for... Amo a denúncia de injustiça social dos profetas do antigo testamento e em especial este texto do profeta Isaías. Nele Deus conclama a Isaías a falar a seu povo sobre as suas transgressões e pecados. Não é outro povo! Não são os “descrentes e mundanos”! É o seu povo... A casa de Jacó! Nada mais nada menos que “O grande povo de Deus”.

O começo do texto é no mínimo irônico: “Todavia me procuram cada dia, tomam prazer em saber os meus caminhos, como um povo que pratica justiça, e não deixa o direito do seu Deus; perguntam-me pelos direitos da justiça, e têm prazer em se chegarem a Deus – Verso 2”. Perguntaríamos... O que há de errado com este povo? Será que Deus não errou de destinatário? Esta mensagem não é para os mundanos? Não seria para a Assíria, Babilônia ou Egito? E a resposta é NÃO! Assim como o “estou a porta e bato” refere-se a igreja, Isaías 58 é para a casa de Jacó e por extensão diz respeito a nós.

As denúncias de Deus através de Isaías envolviam:

“Me procuram a cada dia. Tem prazer em saber meus caminhos” - Eles liam muito a bíblia e esta nada falava a eles. “Como um povo que pratica justiça, e não deixa o direito do seu Deus” - Pareciam ser justos, mais o eram tanto quanto os fariseus que lá na frente arrotavam a mesma suposta “justiça” religiosa. Sempre estavam a par constantemente perguntando-se o que era justo e reto: Mas nem de longe praticavam a justiça requerida pelo Eterno.

A grande denúncia de Deus é contra o jejum que simbolizava as práticas religiosas do povo.

Eles não entendiam porque Deus não os ouvia por meio de seus jejuns. Achavam que a prática religiosa deveria obrigar a Deus os ouvir. Oravam de madrugada, não perdiam um culto, sacrificavam metodologicamente. O que estava então errado?

A Bíblia “A mensagem” diz que a razão do jejum era o lucro e que este era conquistado oprimindo os empregados. A prática era tão coerente quanto pregar contra a pobreza em uma comunidade pobre com um relógio de ouro maciço no pulso. Deus não esta proibindo o jejum... Está apontando os falhos e diabólicos motivos que aquela comunidade tinha de praticá-lo. Não raramente transformamos o divino em diabólico. É a intencionalidade do coração que irá apontar se adoramos a Deus ou a Satanás. A linha sempre é tênue!

Outra denúncia acerca do Jejum era o de que ao mesmo tempo em que jejuavam, eles se enfrentavam aos socos e pontapés. A intenção do jejum era a de esconder suas verdadeiras naturezas. O profeta denuncia enfaticamente que este jejum não passará do teto!

Que jejum então Deus se agrada? O próprio responde:

- Soltar as ligaduras da impiedade.
A palavra impiedade não só tem a ver com aqueles que desprezam o divino, mas também com desumanidade e crueldade. No contexto da casa de Jacó a denúncia é de que eram religiosos, mas mesmo assim “ímpios” e desumanos. No entanto, a proposta do evangelho é sempre humanitária, é sempre de nos tornar verdadeiros seres humanos como Jesus e não bonecos de pano como Adão.

- Desatar as amarras do jugo.
Jugo é o que os nordestinos chamam de canga de boi. É não colocar nas costas de outrem o que não se suporta sobre as próprias.

Enfim: Dar liberdade aos oprimidos – Justiça e inclusão Social – Atentar aos invisíveis da sociedade.

ISAÍAS ESTÁ DIZENDO: “QUEBREM OS JUGOS!”. Deixem livres os miseráveis.

- Repartir o pão com o faminto e acolher os necessitados.
A marca essencial do cristão é a partilha. Nada mais diabólico que o individualismo. Vivemos em uma sociedade cada vez mais individualizada, onde “farinha pouca, meu pirão primeiro”, onde “cada um por si e Deus por todos”. Conseguimos estar juntos, como na marcha para Jesus, ao mesmo tempo em que negligenciamos a dor e o cuidado ao outro. Penso que marcha para Jesus é pão na mesa do pobre e justiça social. Dietrich Bonhoeffer dizia que “A igreja só é Igreja se existe para os outros”. Madre Tereza afirmava que “Mãos que servem são mais santas que lábios que rezam”. Para que as palavras “Tive fome e não me deste o que comer” não caiam sobre nós!

Então, diz o profeta, “Romperá a tua luz como a alva, e a tua cura apressadamente brotará, e a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do Senhor será a tua retaguarda. Então clamarás, e o Senhor te responderá; gritarás, e ele dirá: Eis-me aqui. Se tirares do meio de ti o jugo, o estender do dedo, e o falar iniquamente; e se abrires a tua alma ao faminto, e fartares a alma aflita; então a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia.

sábado, 26 de março de 2016

Meia Hora Programa 59 - João Alexandre, Guilherme Kerr e Nelson Bomilcar

O melhor da música cristã. Sem ídolos gospel, sem animadores de púlpitos, sem shows de entretenimento que suprime a pregação da mensagem da Graça... Somente adoração ao Eterno.



João Alexandre - Ao Sentir

quinta-feira, 3 de março de 2016

Apostolo Agenor Duque Amaldiçoando os cristãos

Esse é o espetáculo do palco gospel. Deus tenha misericórdia dessa alma!





terça-feira, 1 de março de 2016

O Deus do Velho e do Novo Testamento são iguais?

Deus é Plural


Estava hoje pensando no porque de Deus ter escolhido Israel, dentre todas as nações da terra como seu povo “escolhido”. Por que Israel? Uma pequena tribo nômade do Crescente Fértil. “Dois pequenos rebanhos de cabras”, como bem diz I Reis 20:27.

Enquanto meditava a este respeito, comecei a lembrar dos povos que subjugaram Israel. Como um estalo de luz, uma das mais diversas respostas que poderíamos ter, uma veio-me ao coração...

Pois bem, Israel foi subjugado pelos Cananeus, Filisteus e vários outros povos que habitavam a região na Idade do Ferro; depois pelo Egito no século XV a.C, pela Assíria em 722 a.C, Babilônia de 604 a 586 a.C, Império Persa em 539 a 538 a.C (Ciro), Macedônia de 333 a 323 a.C, Ptolomeus de 323 a 198 a.C, Selêucidas de 198 a 166 a.C, Asmoneus 166 a 63 a.C e a partir de 63 a.C pelo grande Império Romano, sendo conquistada por Pompeu. Não esquecendo também dos povos árabes.

Pensando nesta longa trajetória, comecei a meditar sobre o quanto Israel assimilou destes povos. Assimilou cultura, religiosidade, valores éticos e morais, costumes, lendas, ritos e mitos e as tradições de cada povo. Notei que Israel tem um pouquinho de cada povo, um pouquinho do Egito, um pouquinho da Babilônia, um pouquinho da Assíria e assim por diante... E este fato me fez pensar que isto é sem dúvida um daqueles propósitos divinos que não compreendemos muito bem. Este fato me faz pensar que há uma estratégia divina em tudo isso, há uma espécie de teleologia. E se Israel é plural... Se é o pequeno povo escolhido de Deus... Isto é porque DEUS TAMBÉM É PLURAL.

Nós temos uma incrível dificuldade de pensar na pluralidade divina, mesmo quando um dos nossos dogmas, a trindade, nos aponta este caminho com tanta nitidez. Nosso exclusivismo, nossa xenofobia, nosso etnocentrismo, nossas cavernas platônicas nos impedem de ver a pluralidade divina. Chegamos a pensar até que Deus seja cristão, mais não é... Talvez, ou quem sabe com certeza, as leituras que tenho feito de Desmond Tutu influenciem muito este texto. No entanto, sempre acreditei que o Messias não pode ser exclusividade minha, como um produto qualquer que possuo. Ele morreu FORA dos portões da cidade.

Só com uma mentalidade inclusivista é que consigo respeitar a religião e tudo mais do outro. Mesmo não concordando com o pensar, o respeito é a base daquele que pensa a diversidade na unidade. Ninguém nasce sabendo nada. A fala, os gestos e todos os aprendizados são passados dos outros seres humanos para aqueles que adentram a esfera do mundo.

Fecho citando uma das mais lindas palavras e com mais carregada de significados de certa língua Africana; O “Ubuntu”, que carrega o conceito de que uma pessoa só é uma pessoa por intermédio de outras pessoas. Somo-nos seres plurais e só nos tornamos gente na interação, comunicação e troca com os outros seres humanos... Isto é diversidade, isto é pluralidade e isto é inclusivismo. Não deixo de ser quem sou! Mas tenho consciência que só o sou por causa do outro.

Novo megatemplo ilustra disputa de igrejas em SP para 'mostrar poder'

Mais um megatemplo em construção em São Paulo; dessa vez é o da Igreja Internacional da Graça de Deus, do missionário RR Soares (cunhado do bispo Edir Macedo). O Templo da Graça terá 68 mil m².

Outros megatemplos já construídos em São Paulo, a Meca brasileira:

- Cidade Mundial dos Sonhos de Deus, da Igreja Mundial do Poder de Deus, com capacidade para 150 mil pessoas em um espaço de 240 mil m².


- Basílica de Nossa Senhora Aparecida, com área de 1,3 milhão de m², sendo 143 mil m² de área construída. A área interna abriga 30 mil pessoas. A capacidade na área externa é de 300 mil.


- Templo de Salomão, da Igreja Universal do Reino de Deus. Tem 74 mil m² de área construída e altura equivalente a um prédio de 18 andares. Abriga confortavelmente 10 mil pessoas sentadas.


- Templo da Glória de Deus, da Igreja Pentecostal Deus é Amor. Tem capacidade para 60 mil pessoas.


- Santuário Theotokos - Mãe de Deus, idealizado pelo padre Marcelo Rossi tem capacidade para 100 mil fiéis em um terreno de 20 mil m².


"Vemos algo bem diferente do antigo cristianismo tradicional, que pregava como prioridade o sacrifício, o amor ao próximo. Hoje, os fiéis buscam autoajuda, quer ser rico agora, então ele não quer mais a pequena comunidade. Se o cara está falando que você vai ficar rico, é incoerente ele ter uma igrejinha. Se o pastor quer mostrar que o poder dele é real, ele vai continuar construindo coisas extravagantes.

Na Antiguidade, grandes templos eram sinal de poder e autoridade. Hoje, é uma competição. No contexto de São Paulo, é uma questão de mercado porque é uma cidade rica e tem de tudo" (Rodrigo Franklin, professor de pós-graduação em ciências da religião no Mackenzie).


Leia a reportagem da BBC:

Novo megatemplo ilustra disputa de igrejas em SP para 'mostrar poder'
Felipe Souza

Da BBC Brasil em São Paulo

29 fevereiro 2016 



Caminhões retiram terra de terreno para Templo da Graça no Bom Retiro (em cima); Templo de Salomão (embaixo à esq) e Santuário de Aparecida (à dir) estão entre megatemplos de SP


Caminhões passam o dia tirando terra de um terreno de 29 mil m² - o equivalente a três campos de futebol - na marginal Tietê, uma das principais artérias do trânsito de São Paulo. As dimensões da obra lembram a construção de um estádio de futebol, mas trata-se de mais um templo religioso de grandes dimensões na capital paulista.

O Templo da Graça, da Igreja Internacional da Graça de Deus, no Bom Retiro (na região central), terá capacidade para 10 mil pessoas sentadas, a mesma do Templo de Salomão, inaugurado pela igreja Universal em 2014 no Brás, também no centro. A igreja da Graça é liderada por Romildo Ribeiro Soares, conhecido como Missionário RR Soares, e cunhado do bispo Edir Macedo - líder da Universal.

"Vamos fazer uma coisa bonita, para a glória de Deus", disse RR Soares durante um programa no qual anunciou o início da megaobra. O lançamento da pedra fundamental da construção contou com a presença de figuras importantes da igreja e políticos, como o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB).

O projeto para a construção demorou oito anos para ser aprovado e pegou de surpresa até mesmo membros da alta cúpula da atual gestão da prefeitura, que desconheciam o início da obra, aprovada por técnicos.

O Estado de São Paulo já tem ao menos outras cinco megaconstruções religiosas (veja lista abaixo), como o santuário católico Theotokos - Mãe de Deus, idealizado pelo padre Marcelo Rossi e projetado pelo arquiteto Ruy Ohtake, com capacidade para até 100 mil pessoas em Interlagos (zona sul) - e a Cidade da Glória de Deus, em Guarulhos (Grande SP), que comporta até 150 mil fiéis.


Disputa


O professor titular de ciências da religião da PUC-SP Jorge Claudio Ribeiro disse que as igrejas constroem megatemplos para ganhar mais credibilidade.


Igreja da Graça começa a construção de um megatemplo para 10 mil pessoas em São Paulo


"Um vai imitando o outro dentro desse campo religioso para não ser visto como uma liderança de segunda classe. Se uma religião tem um templo, a outra quer um também. O mesmo acontece se uma delas tem espaço na televisão, filme, novela, etc", afirmou.

Se o cara está falando que você vai ficar rico, é incoerente ele ter uma igrejinha

Rodrigo Franklin, professor de pós-graduação em ciências da religião no Mackenzie

Ribeiro aponta que São Paulo tem muitos megatemplos porque há público para enchê-los. Para ele, isso demonstra uma disputa entre as igrejas para provar ao seu público quem tem mais poder - e tem o efeito de transformar a capital paulista em um ponto de turismo religioso.

A inspiração para o gigantismo dos templos vem, segundo Ribeiro, da própria Igreja Católica.

"O catolicismo fez isso durante milênios, com a basílica de São Pedro, o barroco. Os evangélicos do século 21 estão aprendendo com os católicos porque viram que aquela foi uma experiência mais bem-sucedida. Outros exemplos disso são a Marcha para Cristo, imitando as procissões", disse.

Para o professor de pós-graduação em ciências da religião no Mackenzie, Rodrigo Franklin, essas obras demonstram uma mercantilização da fé.

"Vemos algo bem diferente do antigo cristianismo tradicional, que pregava como prioridade o sacrifício, o amor ao próximo. Hoje, os fiéis buscam autoajuda, quer ser rico agora, então ele não quer mais a pequena comunidade. Se o cara está falando que você vai ficar rico, é incoerente ele ter uma igrejinha. Se o pastor quer mostrar que o poder dele é real, ele vai continuar construindo coisas extravagantes", afirmou Franklin.

Segundo Franklin, construir templos cada vez maiores é uma tendência mundial, na qual se destacam o Brasil e os Estados Unidos. "Na Antiguidade, grandes templos eram sinal de poder e autoridade. Hoje, é uma competição. No contexto de São Paulo, é uma questão de mercado porque é uma cidade rica e tem de tudo", disse.


Obras do novo mega-templo de São Paulo podem ser acompanhadas ao vivo pelo site da Igreja da Graça


Para ele, essa "disputa" é uma forma de ostentar e mostrar o poder de cada líder religioso, já que "eles estão competindo pelo mesmo público".
Estrutura

O projeto aprovado pela Prefeitura de São Paulo prevê uma área construída total do Templo da Graça de 68 mil m². Serão dois prédios: um de quatro andares com dois subsolos e outro de nove andares com dois subsolos, onde está prevista a construção de um templo e um edifício-garagem.

O novo centro religioso ainda terá um anfiteatro, heliponto, sala para crianças e locais destinados para casamentos e batismos. A BBC Brasil apurou, porém, que a Igreja Internacional da Graça de Deus enviou um pedido à prefeitura para fazer uma alteração no projeto do prédio onde está previsto um estacionamento.

A reportagem não teve acesso às alterações que a igreja pretende fazer no local. O pedido ainda está em análise pela área técnica da administração municipal.

Assim como os últimos grandes estádios construídos na capital paulista, o Allianz Parque e a Arena Corinthians, o Templo da Graça tem uma câmera ligada na frente do terreno para que os fiéis possam acompanhar a evolução da obra.

Tudo pode ser acompanhado, durante o período em que a luz do dia ilumina o terreno, pelo site do Templo da Graça. Não há a informação de quanto a obra vai custar nem qual a previsão para ser inaugurada.

Procurado, RR Soares negou os pedidos de entrevista da BBC Brasil e disse, por meio de sua assessoria de imprensa, que "ainda não é tempo de falar sobre o templo". Representantes da Rogui Engenharia, responsável pela construção, também se negaram a falar com a reportagem.


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Megatemplos do Estado de São Paulo:

Cidade Mundial dos Sonhos de Deus

Inaugurado em 2011 em Guarulhos, na Grande São Paulo, o megatemplo da Igreja Mundial do Poder de Deus está entre os maiores do mundo, com capacidade para 150 mil pessoas em um espaço de 240 mil m².

Uma programação de 24 horas de transmissão de cada uma das principais reuniões, além de programas, notícias e entretenimento diferenciado, propagam a mensagem do Evangelho não apenas dentro do território nacional, mas também em outros países, onde o trabalho ministerial se encontra presente.

Basílica de Nossa Senhora Aparecida



Área interna da basílica de Aparecida abriga 30 mil pessoas; capacidade para celebrações na área externa é de 300 mil (Foto Marcelo Camargo/Abr)


Localizada na cidade de Aparecida, a 180 km da capital paulista, a Basílica de Nossa Senhora Aparecida recebe mais de 12 milhões de pessoas por ano. O principal ponto brasileiro de peregrinação católica tem uma área de 1,3 milhão de m², sendo 143 mil m² de área construída.

A área interna da basílica abriga 30 mil pessoas. A capacidade para as celebrações na área externa é de 300 mil.

O local ainda possui um estacionamento com mais de 6.000 vagas, sendo 2.000 delas apenas para ônibus e 3.000 para carros. Há ainda um centro de compras com 380 lojas.
Templo de Salomão


Image caption Construção de Templo de Salomão tem 74 mil m² de área construída e altura equivalente a um prédio de 18 andares


A mais nova grande construção religiosa de São Paulo, o Templo de Salomão, foi erguido pela Igreja Universal do Reino de Deus por R$ 680 milhões. A construção tem 74 mil m² de área construída e altura equivalente a um prédio de 18 andares.

O templo é uma réplica do que foi destruído em Jerusalém há mais de 2.000 anos. Sua inauguração teve a presença da presidente Dilma Rousseff (PT).

Templo da Glória de Deus

Inaugurado no primeiro dia de 2004, o templo localizado na avenida do Estado, no centro de São Paulo, tem capacidade para 60 mil pessoas. O prédio, comprado por R$ 200 milhões à época pela Igreja Pentecostal Deus é Amor, passou por uma reforma nos últimos anos.

Fundada em 1962, atualmente há 22 mil igrejas Deus é Amor no Brasil, além de unidades em outros 136 países.

Santuário Theotokos - Mãe de Deus

Projetado pelo arquiteto Ruy Ohtake, o santuário idealizado pelo padre Marcelo Rossi tem capacidade para 100 mil fiéis em um terreno de 20 mil metros quadrados em Interlagos, na zona sul de São Paulo.

O santuário tem 500 banheiros e 2.000 vagas de estacionamento.

Fonte: BBC Brasil

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Guerra Santa - Gilberto Gil

Os salvadores profissionais estão sempre em ação no Brasil, e tem muita gente fazendo doação para ser levado ao céu pelo bom ladrão, como diz a música "Guerra Santa" de Gilberto Gil:

Ele diz que tem, que tem como abrir o portão do céu
ele promete a salvação
ele chuta a imagem da santa, fica louco-pinel
mas não rasga dinheiro, não

Ele diz que faz, que faz tudo isso em nome de Deus
como um Papa na inquisição
nem se lembra do horror da noite de São Bartolomeu
não, não lembra de nada não

Não lembra de nada, é louco
mas não rasga dinheiro
promete a mansão no paraíso
contanto, que você pague primeiro
que você primeiro pague dinheiro
dê sua doação, e entre no céu
levado pelo bom ladrão

Ele pensa que faz do amor sua profissão de fé
só que faz da fé profissão
aliás em matéria de vender paz, amor e axé
ele não está sozinho não

Eu até compreendo os salvadores profissionais
sua feira de ilusões
só que o bom barraqueiro que quer vender seu peixe em paz
deixa o outro vender limões

Um vende limões, o outro
vende o peixe que quer
o nome de Deus pode ser Oxalá
Jeová, Tupã, Jesus, Maomé
Maomé, Jesus, Tupã, Jeová
Oxalá e tantos mais
sons diferentes, sim, para sonhos iguais

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Falar de Jesus falando de você.

Falar de Jesus falando de você. Levando pessoas a crerem no evangelho sem falar de Jesus, porque falar sobre Jesus na atualidade é interpretado como falar de religião. Infelizmente, entender o evangelho como religiosidade é a maléfica herança que o sistema religioso deixou para nossos dias.



domingo, 7 de fevereiro de 2016

Aviso aos incautos, ou melhor, a guerra santa do "Reino de Deus" disputando fiéis na Terra

Antes dos escândalos ocorridos com o bispo da Igreja Mundial, Valdomiro, divulgados pela Rede Record, algumas atitudes destes bispos já chamavam minha atenção. Era justamente os bastidores da briga por fiéis duelada entre Valdomiro e Edir Macedo que deixava claro a mim como o interesse desses homens na verdade não consiste na pregação do evangelho e na libertação pelo poder de Deus, mas sim num mercado rentável que sustenta a atual Indústria da Fé, mantido pelo consumo dos fiéis que se vendem em troca de milagres.

Mas nada chamou tanto minha atenção como uma polêmica entrevista publicada pelo bispo da Universal Edir Macedo.

O vídeo veio direto do púlpito da igreja e mostra uma mulher supostamente possuída por um espírito diabólico sendo indagada sobre algumas questões, sendo o foco principal da conversa o bispo Valdomiro e a igreja Mundial.

Pelo que se percebe, o diabo resolveu apoiar Edir Macedo contra o seu discípulo e, agora rival, Valdomiro.

A entrevista é um verdadeiro show, onde durante 9 minutos o diabo responde ao bispo Macedo sobre o que está acontecendo dentro da igreja Mundial. Um verdadeiro show de horrores com direito a aplausos dos fiéis e risadas do bispo, contente com as respostas do diabo.

Em um dado momento, o "suposto filho do capeta" chega a pregar dentro da igreja. A palavra é passada ao diabo que prega ardorosamente sobre a presença de Deus dentro da IURD... E os fiéis o ouvem atentamente.

Nesse ponto do espetáculo, me lembrei de uma reportagem de mais de 40 min promovida pela Universal na Rede Record, na qual os membros das igrejas evangélicas e principalmente seus líderes são acusados de estarem possuídos pelo demônio durante os episódios de "cai-cai" nos cultos, principalmente nas igrejas pentecostais. Dentre os mais criticados está a cantora Ana Paula Valadão, bem como o seu pai.

Não vou entrar no mérito da discussão sobre o chamado "cair no Espírito" como é intitulado pelos que defendem essa prática ou fenômeno, mas algo me deixou atento: é interessante que o bispo acusa as outras igrejas de darem lugar ao diabo em seus cultos, e ele, por outro lado, simplesmente passa o microfone para o diabo falar suas mentiras dentro da sua igreja no intuito de "avisar aos incautos", como é o título do vídeo exibido no canal do bispo Edir Macedo no Youtube.

Lembro-me ainda que segundo o Senhor Jesus Cristo, o diabo é o pai da mentira e mente desde o princípio!! Então, como entender que dentro de uma igreja que professa a fé cristã esse diabo tem autoridade para falar suas mentiras, ouvidas como verdade? "Verdade" essa que não tem outro motivo, senão a disputa por fiéis, pelo dízimo dos fiéis, ao mesmo tempo que provoca divisão no reino de Deus (se é que se pode chamar esse espetáculo de Reino de Deus).

Confesso que não sou "fã" nem morro de amores pelo bispo Valdomiro (muito menos pelo polêmico Edir Macedo), mas chegar a esse ponto realmente é descer às profundezas sombrias do inferno.

É óbvio que fica claro a encenação da mulher supostamente possuída, porém para os fiéis aquele era o "Diabo falando na Terra" com toda autoridade que possui sobre a "verdade".

E assim caminha a igreja evangélica. Onde ela vai parar não é difícil imaginar, mas somente a Deus cabe o justo juízo.


sábado, 6 de fevereiro de 2016

Um amigo Ateu escreve para o Papo de Graça e Caio responde.

O ateu confuso querendo tirar a dúvida se sua suposta não crença realmente faz algum sentido. Esse é o motivo de tentar um debate com quem crê: acabar com a dúvida que carrega em seu coração: "será que realmente estou certo quanto a não existência de Deus?"



Afinal, o que o amigo ateu veio fazer nesse programa que prega o evangelho de Cristo?

Veio tentar comprovar (para aliviar as dúvidas do seu coração) que Deus realmente é um ser fictício, que não há Deus (afinal, ele ainda não tem certeza da veracidade da afirmação de que Deus não existe). E tenta fazer isso através de uma argumentação qualquer, que, segundo ele, é mais plausível que a do Caio (mas é claro que Caio nem sequer troca argumentos com ele sobre isso, e o deixa continuar na sua dúvida, na sua busca pela comprovação de seu ateísmo).

Na mente do amigo que se auto intitula ateu, se ele vence Caio num argumento, então isso lhe é mais uma confirmação de que Deus não existe, e tal confirmação iria ajudar a eliminar as dúvidas que ele ainda carrega sobre seu ateísmo.

Mas o amigo provavelmente faz isso sem se dar conta, ou então, apenas disfarça que não sabe o que realmente sente.

Mas Caio, experiente que é, sabendo do real propósito do amigo ateu, o indaga: "Você não quer avaliar no seu coração qual é a profundidade do desconforto que o meu falar, o meu sentir, o meu viver lúcido e equilibrado provoca em você? Que tipo de questão eu te suscito? Essa que é a pergunta de macho! Que questão eu te suscito?... A questão concreta, a filosofia real é essa: eu te sou uma questão, eu te sou uma provocação, eu te sou uma inquietação, eu te sou uma pergunta que tu não sabes responder. É só por isso que você está aqui..."

E a resposta final de Caio ao amigo é: "No mais, meu amigo, você vai viver com a questão que eu sou pra você. É a resposta que te dou."



quarta-feira, 12 de setembro de 2012

A Igreja tem salvação?

Por: Leonardo Boff em 09/09/2012

Esta pergunta vem formulada por um dos mais renomados e fecundos teólogos da área do catolicismo: o suíço-alemão Hans Küng num livro recém lançado no Brasil: A Igreja tem salvação?(Paulus 2012). De forma entusiasta fomentou a renovação da Igreja junto com seu colega da Universidade de Tübingen, Joseph Ratzinger. Escreveu vasta obra sobre a Igreja, o ecumenismo, as religiões, a ética mundial e outros temas relevantes. Devido a seu livro que questionava a Infalibilidade papal foi duramente punido pela ex-Inquisição. Não abandonou a Igreja mas, como poucos, se empenhou em sua reforma com livros, cartas abertas e conclamações aos bispos e à comunidade cristã mundial para que se abrissem ao diálogo com o mundo moderno e com a nova situação planetária da humanidade.
Não se evangelizam pessoas, filhos e filhas de nosso tempo, apresentando um modelo medieval de Igreja, feito bastião de conservadorismo, de autoritarismo e de antifeminismo e sentindo-se uma fortaleza assediada pela modernidade, tida como a responsável por todo tipo de relativismo. Diga-se de passagem que a crítica feroz que o atual Papa move contra o relativismo é feita a partir de seu pólo oposto, o de um invencível absolutismo. Pois esta sendo a tônica imposta pelos últimos dois Papas, João Paulo II e Bento XVI: um não às reformas e uma volta à tradição e à grande disciplina, orquestradas pela hierarquia eclesiástica.
O livro de Küng A Igreja tem salvação? expressa um grito quase desesperado por transformações e, ao mesmo tempo, uma manifestação generosa de esperança de que estas são possíveis e necessárias, caso ela não queira entrar num lamentável colapso institucional.
Fique claro, de saída, que quando Küng e eu mesmo, falamos de Igreja, entendemos, em primeiro lugar, a comunidade daqueles que se permitem um envolvimento com a figura e a causa de Jesus. O foco, então, reside no amor incondicional, na centralidade dos pobres e invisíveis, na irmandade de todos os seres humanos e na revelação de que somos filhos e filhas de Deus, Jesus mesmo deixando entrever que era o próprio Filho de Deus que assumiu a nossa contraditória humanidade. Este é o sentido originário e teológico de Igreja. Mas, historicamente, a palavra Igreja foi apropriada pela hierarquia (do Papa aos padres). Ela se identifica com a Igreja tout court e se apresenta como a Igreja.
Ora, o que está em profunda crise é esta segunda compreensão de Igreja que Küng chama de “sistema romano” ou a Igreja-instituição hierárquica ou a estrutura monárquico-absolutista de comando. Sua sede se encontra no Vaticano e se concentra na figura do Papa com o aparato que o cerca: a Cúria Romana. Há séculos que esta crise se prolonga e o clamor por mudanças atravessa a história da Igreja, culminando com a Reforma no século XVI e com o Concílio Vaticano II (1962-1965) de nossos dias. Em termos estruturais, há que se reconhecer, as reformas sempre foram superficiais ou proteladas ou simplesmente abortadas.
Nos últimos tempos, entretanto, a crise ganhou uma gravidade toda especial. A Igreja-instituição (Papa, cardeais, bispos e padres), repito, não a grande comunidade dos fiéis, foi atingida em seu coração, naquilo que era a sua grande pretensão: a de ser a “guia e mestra da moral” para toda a humanidade. Alguns dados já conhecidos puseram em xeque tal pretensão e colocaram a Igreja-instituição em descrédito.
Os escândalos financeiros envolvendo o Banco do Vaticano (IOR) que se transformou numa espécie de off-shore de lavagem de dinheiro; documentos secretos, subtraídos das mais altas autoridades eclesiásticas, quem sabe até da mesa do Papa por seu próprio secretário e vendidos aos jornais, dando conta das intrigas por poder entre cardeais; e especialmente a questão dos padres pedófilos: milhares de casos em vários países, envolvendo padres, bispos e até o Cardeal pedófilo de Viena Hans Hermann Groër. Gravíssima foi a instrução de 18 de maio de 2001 enviada pelo então Cardeal Ratzinger a todos os bispos do mundo, para acobertarem, sob sigilo pontifício, os abusos sexuais a menores pelos padres pedófilos, a fim de que não fossem denunciados às autoridades civis.Um Magistrado de Oregon,USA, tentou convocar o Cardeal a um tribunal. Finalmente o Papa teve que reconhecer o caráter criminoso da pedofilia e aceitar seu julgamento pelos tribunais civis.
Küng mostra, com erudição histórica irrefutável, os vários passos dos papas para passarem de sucessores do pescador Pedro, a vigários de Cristo e a representantes de Deus. Os títulos que o cânon 331 confere ao Papa são de tal abrangência que cabem, na verdade, somente a Deus. Uma monarquia papal absoluta com o báculo dourado não se combina com o cajado de pau do bom Pastor que com amor cuida das ovelhas e as confirma na fé como pediu o Mestre (Lc 22,32)

Leonardo Boff

Oração de Nietzsche: Ao Deus desconhecido

Por: Leonardo Boff em 01.04.2011

Muitos só conhecem de Nitzsche a frase “Deus está morto”. Não se trata do Deus vivo que é imortal. Mas do Deus da metafísica, das representações religiosas e culturais, feitas apenas para acalmar as pessoas e impedir que se confrontem com os desafios da condição humana. Esse Deus é somente uma representação e uma imagem. É bom que morra para liberar o Deus vivo. Mas não devemos confundir imagem de Deus com Deus como realidade essencial. Nietzsche estudou teologia. Eu pude dar uma palestra na Universidade de Basel na sala em que ele dava aulas, quando fui professor visitante em 1998 lá. Essa oração que aqui se publica é desconhecida por muitos, até por estudiosos do filósofo. Por isso no final indico as fontes em alemão de onde fiz a tradução. No original, com rimas, é de grande beleza. LB

Oração ao Deus desconhecido


Antes de prosseguir no meu caminho
E lançar o meu olhar para frente
Uma vez mais elevo, só, minhas mãos a Ti,
Na direção de quem eu fujo.
A Ti, das profundezas do meu coração,
Tenho dedicado altares festivos,
Para que em cada momento
Tua voz me possa chamar.

Sobre esses altares está gravada em fogo
Esta palavra: “ao Deus desconhecido”
Eu sou teu, embora até o presente
Me tenha associado aos sacrílegos.
Eu sou teu, não obstante os laços
Me puxarem para o abismo.
Mesmo querendo fugir
Sinto-me forçado a servi-Te.

Eu quero Te conhecer, ó Desconhecido!
Tu que que me penetras a alma
E qual turbilhão invades minha vida.
Tu, o Incompreensível, meu Semelhante.
Quero Te conhecer e a Ti servir.

Friedrich Nietzsche (1844-1900) em Lyrisches und Spruchhaftes (1858-1888). O texto em alemão pode ser encontrado em Die schönsten Gedichte von Friederich Nietzsche, Diogenes Taschenbuch, Zürich 2000, 11-12 ou em F.Nietzsche, Gedichte, Diogenes Verlag, Zurich 1994.

Reflexão Teologica: liberdade para ser escravo (servo)

Algumas mensagens precisam estar sempre presentes em nossa memória e em nosso coração. Hoje tive o prazer de ser agraciado com essa linda mensagem do meu amigo, o Pr. Valdinei Sobrinho Santana, que fez essa excelente reflexão sobre o atitude cristã de servir ao próximo. Fico agradecido ao Pr. Valdinei por ter compartilhado esse belo texto.

Abaixo segue o texto na íntegra e ao final um breve comentário meu:

 

Reflexão Teologica: liberdade para ser escravo (servo) 

Por: Pr. Valdinei Sobrinho Santana, em 12.09.2012.

Há quem diga que “quem não vive para servir, não serve para viver...” O que muitos não sabem ou não se dão conta é que a frase é extremamente bíblica. A dinâmica do reino de Deus é a dinâmica do serviço e da entrega. Há um texto muito especial nas referencias canônicas que mostra de forma clara e contundente esta realidade. Está em Marcos 10: 35 a 45, um dos textos mais lindos da bíblia. Neste, Jesus altera a ordem social do seu contexto, mostrando que seus discípulos deveriam seguir o seu exemplo em servir e não o de serem servidos.
O texto informa que dois discípulos (a outras versões que informam que o pedido foi da mãe) chegaram próximos a Jesus e lhe pediram algo incomum (pelo menos por ser discípulos de quem eram) O pedido foi de Tiago e João, e o que pediram a Cristo foi que ao subirem aos céus um se assentasse a sua direita e o outro a sua esquerda. A resposta de Jesus foi rápida e sintética, em outras palavras ele disse “Vocês não sabem a besteira que estão pedindo, nem sequer meditaram no que estavam para pedir para fazê-lo”. A lógica daqueles dois discípulos era a mais humana possível; Queriam estar acima dos demais. O desejo dos mesmos é o desejo do homem enquanto homem, que ao deparar-se em um mundo de “salve-se quem puder” age de forma autenticamente egocêntrica, para destacar-se acima de seus iguais, com todos os meios e métodos que possuem em mãos, justificando ou não, os fins aos meios. O que os dois pupilos de Jesus queriam era estar acima dos outros dez.
A resposta de Cristo é impressionante. Jesus fala que no seu contexto social (e por que não dizer em todos) os maiorais exercem autoridade sobre os menos favorecidos, “mais entre vos não é assim, portanto aquele que quiser ser senhor seja servo de todos”. Interessante como Jesus inverte a pirâmide social informando aos seus discípulos que os mesmo só poderiam ser senhores se antes de tudo, fossem servos. Ele segue dizendo que o mesmo também veio ao mundo para servir e não ser servido. Creio ser o único rei na historia da humanidade que teve a coragem de dizer que no seu reinado ele é o rei que serve e não o que é servido.
A palavra servo, que Jesus usou é diáconos. Que no grego bíblico tem o mesmo significado de escravo. Jesus estava dizendo que seus discípulos deveriam ser escravos e servos uns dos outros. O desejo dos filhos de Zebedeu é também intrínseco ao coração de muitos lideres cristãos (pelo menos assim se denominam) desejam a mesma coisa que Tiago e João: Serem vistos pelos demais estando acima dos mesmos. São lideres que seguem a risca a ortodoxia (doutrina correta) mais que esquecem ou menosprezam a ortopraxia (pratica correta). Disso deve resultar a reflexão da famosa frase teológica que; “Verticalidade mística, implica em horizontalidade ética”, traduzindo em miúdos, ou parafraseando o apostolo João; “Quem odeia o seu irmão a quem vê, não pode dizer que ama a Deus a quem não vê.” Ou “Amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.” No caso de Jesus.
Se Jesus veio servir, a igreja é também convocada ao serviço. A pregação do evangelho só pode ser autenticamente legitimada se a mesma ultrapassar o mundo dos discursos vazios e estereotipados, para que os senhores sejam servos. A igreja precisa inverter a pirâmide social para servir a sociedade e poder pensar como pensava são Francisco de Assis “Evangelize o mundo, se precisar use as palavras”...


Breve comentário por Alexsandro:

Cada vez mais precisamos nos deparar com essa realidade cristã: a de servir ao próximo como manifestação do amor que há em nós. E essa é a lógica do cristianismo e nela se baseia o reino de Deus: no amor a Deus e ao próximo e no amor de Deus para com a humanidade, revelado em Jesus Cristo. Não existe amor sem prestação de serviços. Mas nesses dias, o problema é que o ato de servir tem se tornado algo muito subjetivo, inclusive entre cristãos evangélicos e principalmente entre seus líderes. Ou seja, a ideia de servir se estagnou na esfera da linguagem, das meras palavras que por mais lindas que sejam, nunca passarão de palavras; se reduziu a atitudes triviais como fazer uma oração, interceder por um milagre de cura ou abençoar alguém com um óleo ungido. O líder que é capaz de servir através da operação de milagres não é também capaz de aplacar a fome de um irmão faminto. As grandes igrejas atuais se enriqueceram praticando esse "servir" subjetivo, mas na prática tanta riqueza não é revestida em obras sociais que façam jus à essa riqueza ou que faça uma diferença visível na vida daqueles que mais precisam da ajuda das igrejas. Não há um servir concreto, que vá além das palavras e ultrapassa o mundo das convenções sociais, como essa ideia do "salve-se quem puder" que foi citado no artigo. E cada vez mais a igreja se torna uma repetição do mundo, onde a competição e rivalidade por poder transforma seres humanos em meros objetos ou produtos a serem comercializados...
Bom, mas tudo isto já foi previsto, não foi? No entanto, nada nos impede de lutar por uma igreja sadia e livre dessa verticalidade social, das políticas de engrandecimento dos seus líderes e da prática desse serviço subjetivo e morto nas fronteiras das palavras.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Ofensas e preconceitos contra a fé





É comum imagens como essa circularem na internet, com objetivo principal de ofender a crença alheia. O movimento neo-ateísta é um dos que mais publica esse tipo de ofensa a religiosos, mais especificamente a cristãos. É comum em redes sociais como Facebook publicarem frases e imagens que geralmente não apenas defendem o fanatismo ateu, mas desferem golpes e insultos contra a fé e religiosidade daqueles que creem em Deus.

Sempre que tenho a oportunidade costumo comentar quando vejo estas publicações ultrajantes e enganosas, tentando mostrar o erro do ateísmo e defender a fé que tenho em Deus (defendo minha fé, não Deus, afinal Deus não precisa de minha defesa).


A esse tipo de ofensa, por exemplo, costumo responder aos arrogantes e ignorantes que fazer parte da igreja não significa cometer suicídio intelectual ou cultural. O Cristo que servimos nos orienta a prestá-lo um culto racional e com entendimento. Na bíblia, tida por ateus como instrumento de cegueira intelectual, Deus chama seus servos a amá-lo de todo o coração, de toda a alma e de todo entendimento (Mt 22:37). Por amá-lo de todo entendimento, entendemos que nos é pedido para aplicarmos todo raciocínio afim de conhecermos a Deus e usarmos todo esse raciocínio e conhecimento para chegarmos até Ele. Deus rejeita a fé cega e toda forma de culto irracional; o seu chamado é um convite para a libertação de todo ser, inclusive da mente!

Deus não chama o cristão a ter uma fé cega e irracional, pelo contrário, a fé cristã é cheia de razões e motivos. Ou seja, a fé tem motivos para ser. Não cremos cegamente, nem somente porque alguém nos orientou a crer, pois temos bases sólidas para crer em Deus e na sua palavra revelada e registrada na bíblia. A fé não é um salto no escuro e o cristianismo nunca pretendeu propagar tal fé sem sentido. A fé cristã é perfeitamente inteligível e tem suas bases muito bem estabelecidas e documentadas; ela talvez transcenda a razão, mas não é irracional. Fenômenos que não são compreendidos não necessariamente podem ser considerados irracionais. Diga-se de passagem, somos cercados de fenômenos ainda não compreendidos, não obstante, são perfeitamente lógicos e inteligíveis!

Assim como eu não conheço sobre medicina e outras áreas da ciência mas dou crédito ao médico ou outro profissional que é autoridade no assunto, da mesma forma se creio em algo que não vejo é porque alguém que tem autoridade e conhecimento suficiente me informou sobre esse algo. Deus tem toda autoridade, conhecimento, credibilidade e poder para me orientar por isso eu creio nEle.


O fato é que quando alguém que começa a fazer parte de uma igreja ou de qualquer outra instituição e permite que lhe roubem a mente e lhe manipulem, na verdade este alguém já é um ignorante e cego antes mesmo de entrar naquele local. E com sabemos, ignorantes sempre são aproveitados e manipulados, seja na igreja por líderes corruptos, na política ou em qualquer outro lugar. A boa fé e excessiva confiança de pessoas simples sempre serão exploradas, mas isso se dará em qualquer lugar onde houver ser humano. Homens inteligentes não perdem seu cérebro ao fazer parte de uma igreja, pelo contrário, se tornam cada vez mais críticos e interessados em obter conhecimento.


O fato de achar que a pessoa se tornou cego e ignorante por entrar na igreja é apenas manifestação de preconceito e, em sua maior parte, de ofensa contra a religião.


Então, pra terminar, quando pregarmos o evangelho a alguém, não nos limitemos a dizer somente que cremos em Cristo, antes façamos como Paulo e apresentemos os motivos porque cremos nEle. E como temos esperança em Cristo, expliquemos os motivos dessa esperança de forma racional e inteligente. Temos fé e esperança em Cristo, devemos portanto, expor os motivos dessa fé, mostrando como é possível crer em Deus de forma racional e com entendimento, como Ele pede, e não como um cego que crê numa bíblia escrita por homens e sem credibilidade. Explique porque a bíblia tem credibilidade. Aliás, você sabe porque a bíblia tem credibilidade? Ou você pensa que a credibilidade dela é comprovada somente por ela mesma quando nela se afirma que é inspirada por Deus? Claro que é inspirada por Deus, mas sua veracidade e credibilidade pode ser demonstrada de várias formas, uma dela é fazendo uma análise de sua origem. Afinal a bíblia é um documento registrado na história. É importante mostrar ao incrédulo esses elementos que dão a ela uma base histórica viável, aceitável e lógica.

Portanto, façamos como Pedro nos orientou:

"...e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós" (1 Pedro 3:15)

Em Cristo, autor e consumador da nossa fé!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

C.S. Lewis e Sigmund Freud: Uma comparação de seus pensamentos e de suas visões sobre a vida, a dor e a morte. Parte I

Armand Nicholi*

Trad.: Vitor Grando
http://despertaibereanos.blogspot.com

O seguinte artigo é adaptado de uma preleção do Dr. Armand Nicholi em uma reunião de alunos e professores promovido pela Dallas Christian Leadership na Southern Methodist University em 23 de Setembro de 1997. A parte dois aparece na The Real Issue de Março de 1998 e aborda a mudança de cosmovisão de Lewis e sua conversão.


As cosmovisões de Sigmund Freud e C.S. Lewis, ambas predominantes na nossa cultura hoje, apresentam interpretações diametralmente opostas de quem nós somos, nossa identidade, de onde viemos, de nossa herança cultural e biológica e de nosso destino. Primeiro, vamos arrumar as bases para nossa discussão fazendo três perguntas. Quem é Sigmund Freud? Quem é C.S.Lewis? E o que é uma cosmovisão?

Poucos homens influenciaram mais a estrutura moral de nossa civilização do que Sigmund Freud e C.S. Lewis. Freud foi o médico Vienense que desenvolveu a psicanálise. Muitos historiadores colocam suas descobertas ao lado das de Plank e Einstein. Suas teorias proveram um novo entendimento sobre como nossas mentes funcionam. Suas idéias permeiam diversas disciplinas incluindo a medicina, literatura, sociologia, antropologia, história e o direito. A interpretação do comportamento humano no direito e na crítica literária é profundamente influenciada pela suas teorias. Seus conceitos estão tão permeados na nossa linguagem que nós usamos termos como repressão, complexo, projeção, narcisismo, ato falho e rivalidade fraterna sem sequer nos apercebemos de sua origem.

Devido ao inegável impacto de seu pensamento na nossa cultura, os estudiosos se referem a esse século como o “século de Freud”. Por que isso? À luz do que sabemos hoje, Freud é continuamente criticado, desacreditado, e difamado; ainda assim sua figura continua a aparecer em capa de revistas e artigos de primeira página em jornais como o The New York Times. As recentes pesquisas históricas intensificaram o interesse nas controvérsias em torno de Freud e seu trabalho. Como parte de seu legado intelectual, Freud defendeu veementemente uma filosofia de vida secular, materialista e ateísta.

Apesar do fato de C. S. Lewis ter conquistado reconhecimento intelectual muito antes de sua morte em 1963, seus livros acadêmicos e populares continuaram a vender milhões de cópias por ano e sua influência continua a crescer. Durante a Segunda Guerra Mundial, os pronunciamentos de Lewis no rádio fizeram sua voz a segunda mais reconhecida na BBC perdendo apenas para Churchill. Nos anos que se seguiram, a foto de Lewis apareceu na capa da Times e outras revistas importantes.

Hoje, a grande quantidade de livros pessoais, biográficos e literários sobre Lewis, o grande número de sociedades sobre C.S.Lewis em universidades; os periódicos e jornais sobre C.S.Lewis; como também o recente filme e peça sobre sua vida confirmam o sempre crescente interesse nesse homem e na sua obra. Como um jovem membro da universidade de Oxford, Lewis mudou de uma visão secular e ateísta para uma espiritual; uma cosmovisão que Freud frequentemente atacava, mas a qual Lewis abraçou e definiu em muitos de seus escritos após a conversão. Tanto Lewis quanto Freud possuíam dons literários extraordinários. Freud ganhou o prêmio Goethe de literatura em 1930. Lewis, que ensinou em Oxford e foi catedrático de Literatura Inglesa na Universidade de Cambridge, produziu alguns dos maiores criticismo literários e possui uma grande quantidade de livros acadêmicos e de ficção vastamente lidos.

Cosmovisões conflitantes.

Agora, sobre a questão da definição de “cosmovisão”. Em 1933, numa preleção chamada “A questão da Weltanschauung,” Freud definiu cosmovisão como “uma construção intelectual que resolve todos os problemas de nossa existência, uniformemente, sobre o fundamento de uma hipótese dominante.”

Todos nós, quer nos apercebamos ou não, temos uma cosmovisão; temos uma filosofia de vida, nossa tentativa de fazer nossa existência ter sentido. Ela contêm nossas respostas às principais questões que dizem respeito ao sentido de nossas vidas, questões que nos perturbam em algum período de nossas vidas, e que nós frequentemente pensamos apenas quando acordamos às três da manhã. O resto do tempo que estamos sozinhos nós temos o rádio e a televisão ligados que impedem que fiquemos sozinhos com nós mesmos. Pascal dizia que a única razão de nossa infelicidade é que nós não conseguimos ficar sozinhos num quarto. Ele alegou que nós não gostamos de confrontar a realidade de nossas vidas; a condição humana é tão basicamente infeliz que nós fazemos de tudo para nos distrair de pensar nisso.

O vasto interesse e permanente influência das obras de Freud e Lewis se originam nem tanto de seus estilos literários singulares, mas mais do apelo universal que tem as questões que eles trabalharam; questões que permanecem extraordinariamente relevantes às nossas vidas pessoais e à nossa crise social e moral contemporânea.

A partir de visões diametralmente opostas, eles falaram sobre questões como, “Há sentido e propósito para a existência?” Freud diria, “Certamente não! Não podemos nem, do nosso ponto de vista científico, abordar a questão de se há ou não sentido para a vida.” Mas ele afirmaria que se você observar o comportamento humano, perceberá que o principal propósito da vida parece ser a conquista da felicidade e do prazer. Assim Freud delineou o “principio do prazer” como uma das principais características de nossa existência.

Lewis, por outro lado, disse que o sentido e propósito são encontrados na compreensão do porquê estamos aqui em relação ao Criador que nos fez. Nosso propósito principal é estabelecer um relacionamento com esse Criador. Freud e Lewis também discutiram as fontes da moralidade e da consciência. Todos os dias nós acordamos e fazemos uma série de decisões que nos sustentam ao longo do dia. Essas decisões são geralmente baseadas no que nós consideramos que é certo: o que nós valorizamos, nosso código moral. Decidimos estudar com afinco e não usar as idéias de outras pessoas, por que de alguma forma isso é parte de nosso código moral. Já Freud disse que nosso código moral vem da experiência humana, como nossas leis de tráfego. Nós fazemos os códigos por que eles são convenientes para nós. Em algumas culturas você dirige na esquerda, em outras você dirige na direita.

Mas Lewis discordaria disso. Ele disse que apesar das diferenças culturais, há um código moral básico que transcende a cultura e o tempo. Essa lei não é inventada, como as leis de tráfego, mas é descoberta, como as verdades matemáticas. Então, Freud e Lewis tinham um entendimento completamente diferente da fonte da verdade moral.

Lewis e Freud também falaram sobre a existência de uma inteligência além do universo; Freud disse “Não”, Lewis disse “Sim”. Suas visões os levaram a discutir o problema dos milagres na era científica. Freud alegou que os milagres contradizem tudo que aprendemos através da observação empírica, eles não ocorrem de fato. Entretanto, Lewis perguntaria; “Como sabemos que eles não ocorrem? Se há alguma evidência, a filosofia que você trás para interpretar a evidência determina como você interpretará.” Então, de acordo com Lewis, nós precisamos entender se nossa filosofia exclui os milagres e, portanto, afeta nossa interpretação da evidência.

Tanto Freud quanto Lewis falaram muito sobre a sexualidade humana. Freud considerava todo tipo de amor uma forma de sexualidade sublimada, até mesmo o amor entre amigos. Lewis disse que qualquer um que pense que a amizade é baseada em sexualidade nunca teve um amigo realmente.

Eles também discutiram o problema da dor e do sofrimento. Freud era extremamente perturbado por esse problema, e Lewis escreveu alguns maravilhosos livros que ajudam a explicar o problema do sofrimento que todos nós experimentamos. O Problema do Sofrimento [Editora Vida] é uma discussão bastante intelectual da questão. Quando a mulher de Lewis morreu, ele escreveu Anatomia de uma dor [Editora Vida], que eu recomendo enfaticamente. As pessoas da minha área dizem que esse é o melhor trabalho sobre o processo de luto.

E, é claro, ambos discutiram o que Freud chamou de “O doloroso mistério da morte”. Mas eu voltarei a isso mais tarde. Cada uma das questões que eu abordei são filosóficas por natureza. É significante notar que os trabalhos filosóficos de Freud tiveram mais influência na secularização da cultura do que seus trabalhos científicos. Eu vou discutir dois desses temas.

Deus em Questão

Primeiro, a existência de uma inteligência para além do universo, o que os cientistas modernos chamam de “A questão de Deus”. Norman Ramsay, professor de física de partículas em Harvard, ganhou o Prêmio Nobel de Física em 1989. Ele me disse recentemente que mesmo em seu campo, os cientistas tem se tornado interessados na questão de se há ou não uma inteligência para além do universo. Ele disse que é uma área de interesse relativamente recente para eles e que tem sido provocada principalmente pela aceitação da teoria do Big Bang. Eu repliquei dizendo que eu não entendi bem a relação. Ele disse, “Bem, quando acreditava-se que o universo não tinha começo era mais fácil, pois ninguém tinha que se preocupar com o que veio antes. Mas desde que alguém aceita a ideia de que o universo teve um inicio num ponto especifico do tempo, tem que pensar também sobre o que ocorreu antes. Então os físicos agora estão pensando sobre questões que somente teólogos e filósofos pensaram no passado.”

Ao olharmos para o mundo ao nosso redor, nós fazemos uma de duas suposições: ou vemos o mundo como um acidente e nossa existência neste planeta como uma questão de pura chance, ou presumimos alguma inteligência para além do universo que não só provê ao universo um desenho e ordem, mas também provê sentido e propósito à vida. Como vivemos nossas vidas, como terminamos nossas vidas, o que percebemos, como interpretamos o que percebemos, tudo é formado e influenciado consciente ou inconscientemente por uma dessas duas suposições básicas.

Tendo isso em mente, Freud dividiu todas as pessoas entre “crentes” e “descrentes”. Descrentes incluem todos aqueles que se consideram cínicos, céticos, escarnecedores, agnósticos ou ateus. Crentes incluem o resto, cuja crença varia desde um mero assentimento intelectual de que há algo ou alguém além deste mundo até aqueles como Lewis, Agostinho, Tolstoy e Pascal que tiveram uma experiência transformadora depois da qual sua fé se tornou o principal princípio motivador e organizador de suas vidas.

Freud foi de encontro, clara e enfaticamente, à noção de que há “Alguém” além deste mundo. Ele descreve sua cosmovisão como secular e a chama de “cientifica”, e ele alegou que não há nenhuma outra fonte de conhecimento do universo que não seja “a cautelosa observação, o que chamamos de pesquisa.” Logo, nenhum conhecimento, ele disse, pode ser derivado de revelação ou intuição. Ele afirmou que a noção do universo criado por um ser “parecido com o homem mas exaltado em cada aspecto, um super homem idealizado, reflete a grotesca ignorância dos povos primitivos.” Ele afirmou que nenhuma pessoa inteligente pode aceitar os absurdos da cosmovisão religiosa.

Freud descreveu o conceito de Deus como uma simples projeção do desejo infantil de proteção por um pai todo-poderoso. Ele acrescentou que “a religião é uma tentativa de controlar o mundo sensorial, no qual estamos situados, por um mundo que desejamos que é desenvolvido dentro de nós como um resultado de anormalidades biológicas e psicológicas.”

Ele concluiu que a visão religiosa é “tão patética e absurda e… infantil que é humilhante e vergonhoso pensar que a maioria das pessoas jamais se sobreporão a isso.” Apenas por um breve período quando era estudante sob a orientação de um brilhante filósofo chamado Franz Brentano, um crente devoto, Freud duvidou de seu ateísmo, mas ele afirmou que continuou descrente pelo resto de sua vida. Um ano antes de sua morte, Freud escreveu para Charles Sanger, “Nem na minha vida privada nem nos meus escritos eu deixei em segredo o fato de ser um completo descrente.”

Quando examinamos o relato cuidadosamente nós descobrimos que Freud talvez não estivesse tão certo de seu ateísmo quanto ele proclamava. Certamente ele se referia a si mesmo frequentemente como “um Judeu infiel” e ele rejeitou completamente a visão religiosa do universo, especialmente a visão Judaico-Cristã. Ele certamente atacou essa visão com todo seu poderio intelectual e de todas as perspectivas possíveis. Mas ainda assim, por alguma razão ele permaneceu ocupado com estas questões; ele simplesmente não conseguia deixá-las de lado. Ele passou os últimos trinta anos de sua vida escrevendo sobre tais questões.

Num estudo autobiográfico ele disse que essas questões filosóficas e religiosas o interessaram por toda sua vida desde sua juventude. Um grande número de evidências revelam que a cosmovisão de Freud não o deixavam confortável. A fé, de forma alguma, era caso concluído para ele, e ele era extremamente ambivalente quanto à existência de Deus.

Anna Freud, filha e Freud que faleceu há alguns anos atrás, me explicou a única forma de conhecer seu pai: “Não leia suas biografias;” ela instruiu, “leia suas cartas.” Por todas suas cartas, Freud faz afirmações como, “Se algum dia nós nos encontrarmos lá em cima”, “minha única, e secreta oração,” e afirmações sobre a graça de Deus. Durante os últimos trinta anos de sua vida, Freud manteve uma constante troca de centenas de cartas com o teólogo Suíço, Oskar Pfister. É interessante notar que sua correspondência mais longa foi exatamente com este teólogo. Ele admirava Pfister e escreveu, “Você é um verdadeiro servo de Deus… que sente a necessidade de fazer um bem espiritual para todos que você encontra. Você fez isso por mim também.” Ele, posteriormente, disse que Pfister estava, “na honrosa posição de poder levar homens à Deus.”

Será isso apenas formas de expressão? Poderíamos dizer isso de qualquer um, menos de Freud, que alegava que mesmo um ato falho da fala tem um sentido.

O Problema da Dor e do Sofrimento

Eu tenho estudado os escritos de Freud como também suas cartas por muitos anos e eu concluí que o principal obstáculo que Freud tinha com a idéia de um ser inteligente além do universo era sua incapacidade de conciliar um Deus bom e todo-poderoso com o sofrimento que todos nós experimentamos em certa intensidade. Numa carta para Pfister, em 1928, Freud escreveu, “E por último, deixe-me ser indelicado. Como diabos você concilia tudo que experimentamos e esperamos nesse mundo com sua suposição de um ordem moral mundial?” E depois, numa preleção em 1944, ele disse:

“Não parece ser o caso de haver um poder no universo que observa o bem-estar dos indivíduos com cuidado paternal e dirige seus interesses em direção à um final feliz. Pelo contrário, os destinos da raça humana não podem ser harmonizados nem com a hipótese de uma benevolência universal nem com a parcialmente contraditória hipótese de justiça universal. Terremotos, tsunamis, complicações que não fazem nenhum distinção entre os virtuosos e piedosos e os imorais e descrentes. Mesmo quando o que está em questão não é a natureza inanimada, mas quando o destino individual depende de suas relações com outras pessoas, não é de maneira alguma a regra de que o mal é punido e o bem recompensado. Frequentemente são os espertos e ímpios que usufruem das boas coisas do mundo e o piedoso não usufrui de nada. São poderes obscuros, insensíveis e sem amor que determinam nosso destino. Os sistemas de recompensas e punições, que a religião descreve como governo do universo, parece não existir.”

Eu me pergunto quantos de nós pelo menos uma vez não nos sentimos assim. Freud parecia não estar ciente, é claro, de que na cosmovisão Bíblica o governo do universo está temporariamente em mãos inimigas. Antes de Anna Freud falecer, eu lhe perguntei sobre a dificuldade de seu pai com o problema do sofrimento, e ela expressou grande curiosidade em relação a isso. Num determinado momento ela me disse, “Como você explica o sofrimento no mundo? Há alguém lá em cima que diz, ‘Você terá câncer. Você tuberculose’, e distribui adversidades?” Eu disse que não sabia exatamente como responder à pergunta, mas eu sei que ela respeitava Oskar Pfister. Eu disse que pessoas como Pfister descreveriam a presença de um poder maligno no universo que é responsável por parte do sofrimento. Anna pareceu interessada nessa noção e voltou frequentemente a ela na nossa conversa. Devemos lembrar que Freud sofreu consideravelmente em sua vida, emocionalmente como um Judeu crescido na profundamente Católica Viena, e fisicamente com o câncer intratável na boca com o qual ele lutou por dezesseis anos de sua vida. Os procedimentos médicos não eram bem desenvolvidos na época e o causaram uma grande dose de dor física. Então precisamos ter isso em mente quando tentamos entender como ele se sentia. C. S. Lewis, ao longo da primeira metade de sua vida, também se descreveu, como Freud, como um “completo descrente”. Se Freud duvidou de sua descrença quando estava na faculdade, Lewis se regozijava na sua descrença quando estudante em Oxford. Ele expressou um forte cinismo e hostilidade em relação à pessoas que ele chamava de “crentes” e compartilhava do pessimismo de Freud em relação a vida. Quando tinha trinta e três anos, já um membro popular de Oxford, Lewis experimentou uma profunda e radical mudança em sua vida e em seu pensamento. Ele rejeitou a cosmovisão materialista e ateísta e abraçou uma forte fé em Deus e em Jesus Cristo. Essa conversão de uma cosmovisão para outra começou uma fonte inesgotável de livros acadêmicos e populares que influenciaram milhões de pessoas.

Na segunda parte de Quando Cosmovisões Colidem, o Dr. Armand Nicholi discute as visões de C.S. Lewis sobre a vida, a dor e a morte. Leia aqui…

*Dr. Armand Nicholi é professor da Escola de Medicina de Harvard há 20 anos. Ele também ministra um curso popular na Universidade de Harvard sobre as cosmovisões contrastantes de Sigmund Freud e C.S.Lewis.

C.S. Lewis e Sigmund Freud: Uma comparação de seus pensamentos e de suas visões sobre a vida, a dor e a morte. Parte II

Armand Nicholi*

Trad.: Vitor Grando
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O seguinte artigo é adaptado de uma preleção do Dr. Armand Nicholi em uma reunião de alunos e professores promovido pela Dallas Christian Leadership na Southern Methodist University em 23 de Setembro de 1997. Na parte um , Nicholi explicou as visões de Freud sobre Deus e o Sofrimento.

Como alguém muda sua cosmovisão de uma para outra que é dramaticamente diferente? Com C.S. Lewis, essa transformação aconteceu através de um longo período de tempo. Ainda assim, sua conversão não foi menos dramática do que a de Paulo, Agostinho, Tolstoy, Pascal e muitos outros.

Essas são algumas das influências que pressionaram Lewis a mudar sua cosmovisão: Primeiro, Lewis gradativamente se tornou ciente de que a maioria dos grandes autores que ele vinha lendo por anos, eram crentes. Isso começou a fazê-lo pensar. Então, ao reler Eurípedes e Space, Time and Deity de Samuel Alexander, Lewis foi forçado a pensar sobre um profundo anseio dentro de si mesmo; ele reconheceu que era um tipo de anseio que ele experimentava periodicamente mas não conseguia entender bem. Ele chamou isso de “alegria” e escreveu bastante sobre isso. Ele percebeu que essa alegria não era um fim em si mesmo, mas um lembrete de algo ou alguém maior. Posteriormente, ele veio a crer que esse alguém é o Criador.

Segundo, Lewis ficou chocado durante uma conversa com um dos seus colegas professores de Oxford ao ouvir ele, um ateu declarado, afirmar que as evidências para a autenticidade dos evangelhos eram muito boas. As evidências eram persuasivas e as histórias dos Evangelhos pareciam ser verdadeiras. Lewis disse que é impossível compreender o impacto que isso teve nele vindo desse membro específico da faculdade.

Terceiro, ele leu O Homem Eterno de G. K. Chesterton e finalmente passou a crer em Deus. Ele escreve sobre isso de forma sucinta em Surpreendido pela Alegria:

Você tem que me imaginar sozinho naquele quarto em Magdalene, noite após noite, sentindo, a todo momento que minha mente se desviava do meu trabalho, a permanente, e persistente aproximação dEle, o qual eu não queria encontrar de maneira alguma. O que eu temia, finalmente, me sobreveio. No Trinity Term de 1929 eu finalmente desisti, e admiti que Deus era Deus, e me ajoelhei e orei: talvez, aquela noite, o mais relutante e desapontado convertido de toda Inglaterra.

Nesse momento Lewis era um teísta, não um Cristão. Ele se ocupou por muitos longos meses para entender a história do Evangelho e as doutrinas da redenção e ressurreição. Ele chegou a ler o Evangelho de João em Grego.

Então, no outono de 1931, ele jantou com dois membros da faculdade, J.R.R. Tolkien, autor de O Senhor dos Anéis, e Hugo Dyson, um professor de literatura Inglesa. Depois do jantar, os três conversaram sobre a grande questão concernente a verdade dos Evangelhos e se fizeram a pergunta que um dos pupilos de Lewis se referiu como, “Será verdadeiro, será verdadeiro, esse conto mais impressionante de todos?” Eles conversaram e caminharam por horas por um caminho chamado Caminho de Addison. O relógio na Torre de Magdalene marcava três da manhã antes deles partirem. Essa conversa teve um profundo efeito em Lewis. Nove dias depois, Lewis viajou de moto com seu irmão. Ele escreveu, “Quando saímos eu não acreditava que Jesus Cristo era o Filho de Deus, e quando chegamos ao zoológico, eu já cria.” Depois, Lewis escreveu: “Minha longa conversa com Dyson e Tolkien tiveram um grande impacto nisso.”

A conversão de Lewis revolucionou sua vida. Ele se tornou um prolifíco autor, vendendo milhões de cópias de livros e influenciando muitas pessoas em universidades, especialmente nesse país e na Europa. Devido ao fato dele mesmo ter sido ateu pela primeira metade de sua vida, ele conhecia os argumentos muito bem. Por exemplo, Lewis concordava com Freud em crer que nós, de fato, possuímos um profundo desejo por Deus, mas ele discordava com a noção de Freud de que Deus, portanto, era nada mais do que produto da satisfação de um desejo. O que nós desejamos, Lewis apontou, não tem nada a ver com a questão de se Deus existe ou não. De acordo com a teoria de Freud, o desejo da não-existência de Deus seria tão forte quando o desejo de sua existência. Lewis, portanto, disse que tudo que isso nos diz é algo sobre nossos sentimentos, mas muito pouco sobre a existência ou inexistência de Deus. Então Lewis tendia a responder a maioria dos argumentos formulados por Freud.

A Questão da Mortalidade

Vamos mudar agora para nosso segundo assunto, a questão da mortalidade, a qual Freud se referiu como “o doloroso mistério da morte.” Sócrates disse que o verdadeiro filósofo está sempre negando a morte e o ato de morrer. E, de fato, a maioria dos grandes escritores escreveram continuamente sobre isso.

Uma questão fundamental da nossa existência, uma que aprendemos ainda cedo na vida, é que nós estamos aqui na terra por um curto período. Nós somos as únicas criaturas na terra que podem prever nossa própria morte. Ao mesmo tempo, nós temos um profundo anseio pela permanência e um profundo e penetrante medo de sermos separados daqueles que nós amamos sendo abandonados. O medo de ser abandonado é o primeiro medo que experimentados quando crianças, um bebê chora quando sua mão sai do quarto. Pesquisas no Hospital Geral de Massachusetts mostraram que, em pacientes terminais, isso é o que eles mais temem, o medo de serem deixados sozinhos, de serem abandonados. É um medo temos em mente por toda nossa vida. Ainda assim não podemos escapar da cruel realidade de que cada respiro que damos, cada batida do coração, cada hora do dia nos aproxima ainda mais da hora em que deixaremos para trás aqueles que nós amamos.

Agora, como você processa essa informação? Como você entra em acordo com isso? Os psiquiatras dizem que essa questão é tão importante que você não pode realmente viver sua vida até que entre em um acordo com essa informação. Mas como você processa isso sem se encher de ansiedade ou e medo? Isso é o que Freud chamou de “o doloroso mistério da morte.”

Freud e o Mistério da Morte.

Freud escreveu frequentemente sobre a morte. Eu mencionarei apenas uns poucos comentários que ele escreveu e como ele frequentemente se confrontava com sua própria morte.

Em 1932, numa obra chamada Totem e Tabu, Freud fez a interessante observação de que a morte não existe na nossa mente inconsciente: “Nosso inconsciente não acredita em sua própria morte. Ele se comporta como se fosse imortal. Nós não conseguimos imaginar nossa própria morte e quando tentamos fazê-lo nos apercebemos que somos, de fato, ainda espectadores, assim, ninguém crê em sua própria morte.” Freud evitou dar qualquer interpretação filosófica dessa observação provocadora de que nas profundezas de nossas mentes, “todos nós estamos convencidos de nossa imortalidade.”

Em O Futuro de uma Ilusão, Freud falou frequentemente sobre o doloroso mistério da dor. Ele terminou um ensaio com a curiosa sugestão de que se você quer suportar a vida você deve estar preparado para a morte. Ele pareceu perceber o que as pessoas na minha área tem falado durante anos, que nós não podemos realmente começar a viver nossas vidas até, de alguma forma, resolver o problema da nossa própria morte. E quando isso permanece não resolvido, gasta-se uma energia excessiva ou negando a morte ou se tornando obcecado com ela.
Freud não deixou dúvidas sobre como ele lidava com o problema. Ele se tornou obcecado com a morte. Seu colega Ernst Jones, seu biografo oficial, escreveu:

Pelo que sabemos da vida de Freud, ele parece ter sido possuído por pensamentos de morte. Mais do que qualquer grande homem que eu posso imaginar. Mesmo na época que estávamos nos conhecendo ele tinha o desconcertante hábito de partir dizendo “Adeus. Você talvez não me verá nunca mais.” E então haviam os repetidos ataques do que ele chamava de “o pavor da morte”. Ele odiava envelhecer. Mesmo quando ele tinha quarenta anos e a cada ano que se passava, os pensamentos de morte se tornavam cada vez mais despóticos. Ele disse uma vez que ele pensava sobre isso cada dia de sua vida, o que é bastante incomum.

Freud sonhava com a morte continuamente, e desde cedo em sua vida ele era obcecado em prever sua morte. O médico de Freud descreveu sua preocupação com a morte como supersticiosa e obsessiva. Freud estava certo que morreria aos 41, depois aos 51, depois 61, depois 62, depois aos 70. Ele entrava num hotel e se lhe fosse entregue o quarto 63. Ele saia e permanecia, por meses, convencido de que morreria aos 63 anos. Quando Freud perdeu um ente querido, ele se sentiu totalmente desesperançoso. Numa carta para Jones, ele escreveu, “Eu tinha a sua idade quando meu pai morreu e isso revolucionou minha alma. Você consegue se lembrar de um tempo tão cheio de morte quanto esse?” Quando tinha 64 anos, Freud perdeu uma jovem e linda filha, e ele se perguntava quando chegaria a sua hora. Ele desejava que fosse logo. Ele disse, “Eu não sei o que resta dizer depois de um evento paralisante como esse que não gera nenhuma dúvida posterior para quem não é crente” . Em outra carta ele escreveu, “Como um descrente, eu não tenho ninguém para acusar e não há lugar onde fazer uma queixa.” Três anos depois o neto favorito de Freud morreu de tuberculose. Ele escreveu para um amigo, “Isso é difícil de suportar. Eu acho que jamais experimentei tamanha dor. Talvez minha própria doença contribua para isso. Eu trabalho por pura necessidade. Tudo perdeu o sentido para mim.” E em outra carta ele afirmou, “Para mim, essa criança tomou o lugar de todos os meus filhos e netos já que eu não me importo com nenhum dos meus netos. Eu não encontro nenhuma alegria na vida.”

Freud morreu aos 83 anos depois de uma batalha contra um câncer que durou 16 anos. Seu livro favorito era o Fausto de Goethe, a história de Fausto fazendo um pacto com o diabo. Logo antes de Freud morrer, ele foi até a estante da livraria e pegou um livro de Balzac entitulado The Fatal Skin, no qual o personagem principal também faz um pacto com o diabo. O livro termina quando o herói não consegue controlar seu medo da morte e morre em estado de pânico. Estranho, como último livro. Depois de ler o lviro, Freud lembrou seu médico da promessa que ele havia feito de facilitar sua passagem quando o tempo tivesse chegado. Seu médico injetou dois centigramas de morfina que o fizeram dormir, então 12 horas depois ele injetou mais dois centigramas. Freud morreu às três da manhã do dia 12 de Setembro de 1939.

C.S. Lewis e a Morte

C.S. Lewis também escreveu sobre a mortalidade. Em O Problema do Sofrimento, Lewis descreve como, quando ateu, o problema do sofrimento humano, especialmente a capacidade humana de prever sua morte enquanto intensamente deseja permanecer, foi uma barreira para ele crer num Deus bom e todo-poderoso. Após sua conversão, ele entendeu a morte como um resultado da queda, uma transgressão das leis de Deus, e que a morte não era parte do plano original. (Talvez essa seja a razão de não termos símbolo para a morte no nosso inconsciente, e termos tamanha dificuldade em aceitar nossa mortalidade.)

Lewis fez referência frequente ao principio básico que a morte ilustra. Quando tinha 31 anos, antes de sua conversão, Lewis escreveu uma carta que afirmava, “Eu penso que eu entendo isso todo ano no Outono, assim como a simples natureza e a exuberante vida do mundo está morrendo, de que algo mais está acordando. Será que isso é significante? A morte do homem natural sempre significa o nascimento do espiritual; será que algo jamais dorme se não para que algo mais acorde?”

Então alguns anos depois numa outra carta, ele escreveu, “Pode alguém acreditar que não havia nada de persistente naquele motivo de sangue, morte, e ressurreição que aparece e todos os grandes mitos?” Ele estava começando a notar enquanto estudava toda a literatura antiga que mesmo nas culturas pagãs haviam essas estranhas histórias de um deus vindo à terra, morrendo, e ressuscitando. Ele se perguntava o que isso significava. E quando você olha para a natureza, de fato você vê coisas mesmo na vida vegetal onde uma semente cai na terra, morre e volta a vida na forma de uma planta ou uma grande árvore. Será que isso pode estar apontando para o que ele eventualmente chamava de “o grande milagre,” a ressurreição? Ele disse, “Certamente a história da mente humana se encaixa muito melhor se você supor que tudo isso eram as primeiras sombras de algo cuja realidade veio em Cristo mesmo se nós não conseguirmos compreender isso completamente no presente.”

Tragédia Pessoal

Em sua vida pessoal, C. S. Lewis se confrontou com a morte quando era criança. Aos nove anos ele perdeu, em poucos meses, seu avô paterno, um tio, e sua linda mãe. Numa autobiografia, Surpreendido pela Alegria, ele se lembra de sempre estar confinado no seu quarto, doente com dor de cabeça e de dente. Ele estava profundamente triste por sua mãe não ter ido vê-lo. Ele não conseguia compreender a razão disso

Isso era por que ela estava doente, também: e o que era estranho é que haviam diversos médicos no seu quarto, e vozes e gente indo e vindo por toda a casa, portas se abrindo e fechando. Parecia ter durado por horas. E então meu pai, às lágrimas, entrou no meu quarto e começou a tentar explicar para a minha mente apavorada coisas que eu jamais havia concebido antes.

Disseram a ele que sua mãe estava morrendo de câncer. Ele chamou isso de “toda a existência mudando em algo estranho e ameaçador, enquanto a casa se enchia de aromas estranhos e barulhos durante a madrugada e conversas murmuradoras sinistras.”

“Meu pai jamais se recuperou dessa perda,” ele observou. Talvez Lewis também não, no sentido de que ele foi enviado para um colégio interno, pois seu pai estava muito deprimido para cuidar dele. Numa idade muito precoce, ele perdeu pai e mãe.

Quando tinha 18 anos e era estudante em Oxford, Lewis se juntou ao exército. Ele se feriu durante manobras na França e, numa preleção em Oxford muitos anos depois, ele fez a interessante observação de que a guerra não torna a morte mais frequente, 100 por cento de nós morremos e essa percentagem não pode ser aumentada.” Ele afirmou que a guerra coloca diversas mortes mais cedo e um dos aspectos positivos da guerra é que ela nos alerta de nossa mortalidade. Quando ele tinha 23 anos ele escreveu uma carta para seu pai sobre a morte de um velho professor, amigo de ambos. Ele afirmou:

Eu vi a morte com bastante frequência [na guerra] e mesmo assim não consigo deixar de vê-la como extraordinária e incrível. Uma pessoa real é tão real e tão obviamente viva e diferente do que o corpo morto. Não é possível crer que aquele algo se tornou em nada, que alguém pode subitamente se transformar em nada.

Isso me lembra de dos meus estudantes de medicina que acabam de iniciar a prática médica; muito frequentemente eles me chamam para falar de suas experiências na residência. Uma das coisas que os estudantes mencionam com frequência é quão diferente uma pessoa é antes e depois da morte, quão diferente um corpo é de uma pessoa viva. Eles sentem que há algo que desaparece, que não está lá após a morte, e que nós somos muito mais do que nossos corpos. Lewis pareceu reconhecer isso quando ainda era muito jovem.


A Morte Importa

Em Anatomia de uma Dor, Lewis escreveu sobre a morte de sua esposa que era para ele tudo de importante. Como eu mencionei, muitos psiquiatras consideram esse livro um clássico no entendimento do luto. Lewis faz você sentir raiva, ressentimento, solidão, e medo. Sua raiva se torna palpável quando ele imagina que Deus é um “sádico cósmico, o imbecil odioso”. Ele escreveu, “É difícil ter paciência com pessoas que dizem que não há morte ou que a morte não importa. A morte existe,” ele continua, “e o que quer que importa. Poderíamos também dizer que o nascimento não importa.”

Lewis nunca perdeu seu senso de humor. Quando ele tinha 59 anos de idade, uma mulher escreveu para ele e disse quão terrível era ter acabado de perder um amigo. Lewis escreveu de volta, “Não há nada de desonroso em morrer. Eu conheço pessoas respeitáveis que morreram.” Em outra carta, alguns anos depois, ele escreveu, “Que estado nós chegamos para não conseguir dizer, ‘Estarei feliz quando Deus me chamar’ sem ter medo disso, é mórbido. Apesar de tudo, o próprio São Paulo disse o mesmo. Porque não deveríamos pensar mais para a frente, no advento?”

Lewis concluiu que nós podemos apenas fazer três coisas em relação a morte: desejá-la, temê-la, ou ignorá-la. Ele afirmou que a terceira tentativa, a qual o mundo moderno chama de saúde, certamento é a mais difícil e precária de todas.

Lewis sofreu um ataque cardíaco em 15 de Junho de 1963, e entrou em coma. Ele se recuperou apesar disso, e viveu as poucos meses seguintes calmo e feliz. Seu último biografo nota que antes de sua conversão, Lewis era extraordinariamente ansioso em relação a morte, mas após sua conversão ele parecia ter uma maravilhosa calma quanto a isso, até mesmo uma antecipação. Relatos de seus últimos dias atestam a calma e paz interior.

Durante esse tempo, ele escreveu para um amigo de longa dada afirmando, “Apesar de eu não estar infeliz de maneira alguma, eu não consigo deixar de lamentar o fato de ter revivido em Julho”. Ele continuou, “Quero dizer, tendo sido levado tão suavemente até os portões, parece duro ter o portão fechado na cara e saber que todo o processo tem que recomeçar um dia. Pobre Lázaro.” E para um outro amigo ele perguntou, “Deve-se honrar Lázaro ao invés de Estevão como primeiro mártir. Ter sido trazido de volto e ter que passar por tudo de novo deve ter sido bem difícil.” E então ele disse, “Quando você morrer, me procure. É tudo tão divertido, solenemente divertido, não é?”

Duas semanas antes de sua morte, Lewis almoçou com um colega da faculdade. Ele disse que Lewis estava alerta de que o fim estava próximo e que jamais houve um homem tão bem preparado. Em 22 de Novembro de 1963, às 4 da tarde, o irmão de Lewis lhe trouxe seu chá da tarde. Ele observou que Lewis estava sonolento, mas calmo e alegre. As 5h30, ele estava morto.

Nós estudamos as cosmovisões contrastantes de duas mentes prolíficas. Uma visão alega que o universo é um acidente e que nossa existência é uma questão de pura chance. A outra vê o universo como resultado de um projeto e nossa existência como parte desse projeto. Um vê a morte como um mistério doloroso que causa grande ansiedade, desespero e amargura. O outro vê a morte como o passo final do projeto para o qual sua vida foi criada, um passo que pode ser experimentado com calma e até antecipação por causa do que Lewis chamou de “o grande milagre”, a ressurreição.

Divina Dádiva